Resenha: Elza Soares – Turnê “A Mulher do Fim do Mundo” (BH – 28.07.2017)

Fotos: Diego Concesso

Uma das coisas que mais impressionam em um artista da música é a capacidade de contar histórias com um álbum e estender o seu discurso para os palcos de uma turnê. Em tempos onde os efeitos especiais e coreografias tomam contam de um show e camuflam o pouco talento que anda impregnado em vários cantores, ainda é possível respirar aliviado e contar com outros artistas de alma, aqueles que causam impacto com a simplicidade, sinceridade e real talento no ponto certo. Felizmente uma dessas artistas é Elza Soares, que voltou a Belo Horizonte com a excelente turnê “A Mulher do Fim do Mundo”, em apresentação no grande teatro do Palácio das Artes.

Sentada numa cadeira que a deixa sempre na posição de rainha da noite, Elza canta do alto, no centro do palco, com a banda ao seu redor – todos posicionados como súditos da alteza. Assim como a plateia também fica diante da artista: aos seus pés. E desde o primeiro instante, ela canta com toda força que a tão famosa voz do milênio tem a oferecer. “Eu vou cantar até fim, me deixem cantar até o fim” soa quase como um grito de guerra que ela entoa nos versos da primeira música do set “Mulher do Fim do Mundo”.

Em cena, Elza abraça temas sociais extremamente importantes e personagens marginalizados pela sociedade desde sempre, em músicas que falam sobre a violência, preconceito, transexualidade, direito da mulher, racismo e também o simples direito de ser o que se é. E tais temas envolvem tanto o público que não houve necessidade alguma da cantora divulgar o álbum massivamente para as canções grudarem na ponta da língua dos fãs. Prova disso aconteceu na hora em que ela apresentou o single “Maria de Vila Matilde”, que narra uma história inspirada em uma mulher que sofreu violência doméstica. Logo que foi lançada, a música se tornou um hino de encorajamento a denúncias de casos como esse.

Naquele momento, o ápice da noite, era possível ver várias mulheres empolgadas na plateia e possivelmente se identificando com as palavras da cantora, numa forte corrente de sororidade. Elza fez questão de reforçar que ninguém deve sucumbir aos maus tratos, falando em alto e bom som o número de telefone – 180 – que ajuda e ampara as vitimas desse tipo de violência. Além disso, ainda sugeriu que troquem os tapas das agressões por beijos e mais amor, que é exatamente o que o mundo precisa neste momento.

O show leva a plateia a uma viagem de reflexão, empatia e até mesmo autoconhecimento, pois Elza mostra uma realidade tão nua e crua que é bem possível (e necessário) que cada pessoa que tenha passado por aquele teatro passe a entender melhor sobre a profundidade e delicadeza que tem cada um dos assuntos mostrados no palco e o porquê deles estarem em pauta. Sem qualquer pré-julgamento ou achar que é “mimimi” ou vitimismo do momento.

Do alto dos seus 80 anos, Elza Soares mostra nessa turnê tamanha consciência, coragem, lucidez e, principalmente, respeito aos seus súditos. Não é a toa que nos últimos segundos ela sai de cena agradecendo e baixando a cabeça numa espécie de reverência a todos. Gesto digno de uma verdadeira realeza.

>>> Veja mais fotos do show aqui.

 

Repertório:

Coração do mar/Mulher do Fim do Mundo
Canal
Luz Vermelha
A Carne
Dança
Firmeza
Maria de Vila Matilde

Pra Fuder
Benedita
Malandro
Solto
Comigo

Bis:

Volta Por Cima
Presentimento

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Respira música e faz dela a melhor opção de terapia diária. Amante da MPB.

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