Entrevista: Anna Ratto

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Foto: Páprica Fotografia

A cantora Anna Ratto já foi apresentada aqui no site na nossa seção “Perfil” e nós aproveitamos para bater um papo com ela. Anna falou sobre a carreira, seu primeiro DVD lançado recentemente, suas amizades no mundo da música e sobre os seus projetos futuros.

Seu primeiro DVD comemora 10 anos de carreira. Analisando toda a sua trajetória: no que você acha que melhor evoluiu profissionalmente ?

Acho que a evolução, nesse caso, é um processo global, bem distribuído. Em dez anos, deu tempo pra experimentar, errar, acertar, perceber, modificar. A chance de aprimorar aquilo que a gente repete muito é sempre maior. Então o crescimento vem naturalmente. Hoje sinto mais segura. Ganhei mais ousadia. Minha voz encontrou mais conforto nas canções. Meu corpo, mais inteiro no palco. É bacana ouvir feedbacks de gente que me acompanha desde o início. Ou que ficou muito tempo sem ir aos shows e, de repente, vai e saca uma diferença. O público é o nosso termômetro.

E qual foi a melhor coisa que conquistou nessa década ?

Difícil citar uma conquista específica. Vivo celebrando momentos. Mas, sem dúvida, o DVD foi uma grande realização. Sabemos das dificuldades. Tive tanta luz e tantos parceiros maravilhosos. Tanta gente “grande” junto. Estou muito feliz com o momento. Ô, sorte!…

Você é carioca, mas tem uma grande influência dos ritmos nordestinos em suas canções. Como descobriu essas sonoridades e por que elas fazem parte das suas músicas ?

A música brasileira é riquíssima. Sempre amei a diversidade dos nossos ritmos. Sempre amei artistas que transitam por vários gêneros. Não sei muito explicar essa queda pelo nordeste, especificamente. Mas sempre existiu. Desde que ouvi Luiz Gonzaga, pela primeira vez. Mais tarde, pirei no mangue beat do Chico Science e sua Nação Zumbi, mais mesclado, mais rock. Lenine também. O seu disco “Olho de Peixe” me arrebatou e, em consequência, tudo que ele lançou depois. Quando decidi seguir carreira, me “joguei” na Lapa e em suas oficinas de percussão, dança etc. Foram experiências que me ampliaram horizontes. O maracatu, os folguedos… Tudo me arrepia. Me comove. A cultura, a energia. É identificação mesmo. Trouxe a influência comigo, inevitavelmente.

Por que demorou tanto para produzir um registro audiovisual ?

Demorei, é? (risos) Acho que não. Acho que o momento ideal se apresenta por si só. É meio clichê dizer isso, mas “o universo conspira”, de verdade. Não consigo pensar em momento melhor. Foram 3 discos lançados. Já tinha material, repertório. Já sabia do que funcionava nos shows. O entrosamento com os músicos e o amadurecimento geral. Tudo isso é fruto do tempo. Foi quando surgiu essa necessidade. Quando me senti pronta por saber que tínhamos o show, na sua melhor forma. Que era quase só dar “play-rec” mesmo. Pouco interferimos, pouco ensaiamos (comparado ao que vejo acontecer, normalmente). Já estava lá. E a equipe se construiu muito rapidamente. Fui muito feliz, nesse ponto. A começar pela Roberta Sá, amiga querida que me ajudou a realizar com tanto carinho e generosidade.

Qual foi a concepção inicialmente pensada para o DVD ? Como foi o processo de produção do registro ?

Mostrar a energia do “ao vivo”. A relação com a banda, com o público, com as canções. O téte-a-téte. O ponto alto que, para mim, é estar no palco. O processo foi bem objetivo. Fechei o repertório junto com a Roberta e o Rodrigo Vidal (produtor musical dos meus três discos). São dois olhares que conhecem bem o trabalho. E que me conhecem muito bem também, o que agrega ainda mais valor.

Como o nome do Canal Brasil entrou no projeto ?

A Roberta sugeriu a possibilidade para o Canal Brasil, que logo abraçou. E trouxe pessoas com quem ela já tinha trabalhado para criar, junto com a gente, o conceito mais estético, com base nos muitos papos que tivemos. O David Pacheco ficou com a direção geral e arrasou. Pensamos juntos nas participações luxuosíssimas do Erasmo e do Lucas que, felizmente, também aceitaram rapidamente. Marcamos os ensaios e, quando vi, já estava lá: fazendo o que mais amo, e isso, sendo captado pra sempre.

Canções como “Tonta” e “Do Zero” fizeram falta no DVD. Como chegou ao set list final para a gravação ? Qual foi o critério ?

Poxa, nem me fale. Difícil isso. A Roberta, em especial, insistiu no autoral. Fiquei prosa e acatei (risos). Mas, claro, não deixei de fora releituras que me representam muito como “Parabolicamará”, do Gil, “Os Pingo da Chuva”, dos Novos Baianos, “Cachaça Mecânica”, do Erasmo, entre outras. Ainda teve espaço pra novidades como a inédita “Desalento” que compus com o Lucas Vasconcellos, ao longo dos ensaios; “Velha Roupa Colorida”, do Belchior, que canto desde os 15 anos; “Temporais” do Edu Krieger com Geraldo Azevedo. Enfim… haja música! Mas acho que, no fim, foram 19 que traduzem bem o trajeto. Nada me impede de variar, de vez em quando. Acabo de cantar “Do Zero”, no show de lançamento, por exemplo. Adoro variar. Me dou essa liberdade.

Você e Roberta Sá são amigas há anos e só agora se juntaram para trabalho e pelo visto deu muito certo. Há previsões para novas parcerias ?

Deu certo. Não tinha dúvidas. Não tem tempo ruim. Temos uma confiança mútua. Somos sagitarianas. Nos divertimos, “viajamos”, mas também somos muito práticas, pragmáticas. Cantamos juntas no lançamento do DVD aqui no Rio. Me emociono, sempre. É amizade que vai pra muito além da música. Mas sempre adoramos cantar juntas. Flui fácil. Abrimos vozes, brincamos. Timbra bem. Nosso registro vocal é parecido. Parcerias? Adoro parcerias. Com ela, com outros artistas e amigos queridos e talentosos. Já tenho meus planos e sonhos. Mas estão guardadinhos, por ora, “marinando”.

Apesar da parceria entre amigas ser recente, vocês costumavam participar da vida profissional uma da outra de alguma forma ? Como ?

Sempre conversamos muito sobre nossas vivências, escolhas. Mas também sempre respeitamos muito os caminhos uma da outra. Temos uma turma em comum, mas também temos nossas outras turmas. É sempre muito rica, a troca. A coisa de trabalhar junto veio também na hora certa. Ela também se sentiu pronta, agora, para estar nesse lugar de ‘bastidores’, para olhar de fora, tomar outra posição. Novo para ela também, apesar de eu sempre ter enxergado esse lado. É sensível, criativa, perspicaz. Mas, de todo jeito, acho bem especial mesmo o que aconteceu com a gente. Falo porque as pessoas elogiam sempre com tom de surpresa: “Cantora dirigindo cantora”. As duas, da mesma geração. É generoso, é raro. É lindo! Fico super orgulhosa que tenha sido assim. Acho que tem que acontecer mais, com mais gente. Dar as mãos é fundamental.

O que o público pode esperar do primeiro DVD de Anna Ratto ?

Um trabalho solar, colorido, brasileiro. É minha identidade, minha verdade. Meu imenso amor pela música, escancarado ali. O fechamento de um primeiro ciclo de carreira, do que construí até aqui. É feliz, é “pra fora”. Espero, pelo menos, que assim seja para quem possa ver e ouvir.

Seu último álbum era um álbum mais pessoal, que te retratava mais profundamente através do seu lado compositora. Podemos esperar isso do quarto álbum ? O projeto já tem um conceito pensado e está sendo produzido ?

Ainda não está sendo produzido, mas a minha cabecinha já está ‘fritando’. Quero experimentar novas sonoridades, gravar novos compositores. É tanta gente boa por aí. Já tenho minha listinha! Já tenho algumas (muitas) ideias. Vai começar um novo momento. Na hora boa, eu conto. Prometo.

 

Bate-bola

Um disco que está ouvindo ultimamente: Estratosférica (Gal Costa)

Um disco que não sai nunca do seu player: “Acabou Chorare” (Novos Baianos)

Artista favorito (a): No geral, diria (hoje) que Caetano Veloso. (Mas essa pergunta é cruel.)

Música favorita: Cruel também. Mas para não deixar de citar, me vieram: “O Último Pôr do Sol” (Lenine/Lula Queiroga); “Lamento Sertanejo” (Gilberto GIl/Dominguinhos); “Santa Chuva” (Marcelo Camelo)

Se descreva como artista em uma palavra: “Multicolor”

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Respira música e faz dela a melhor opção de terapia diária. Amante da MPB.

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